Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007

Entrevista

SOU UM PRIVILEGIADO
 
    Carlos Fiolhais nasceu em Lisboa em 1956. Licenciou
-se em Física na Universidade de Coimbra em 1978 e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt/Main, Alemanha, em 1982. É Professor Catedrático no Departamento de Física da Universiade de Coimbra desde 2000. Foi professor convidado em universidades de Portugal, Brasil e Estados Unidos.
     Publicou cerca de 30 livros, alguns dos quais em co-
-autoria, incluindo obras infanto-juvenis.
     Fomos encontrar o Professor num restaurante da nossa cidade. O encontro deu-se por pura casualidade, mas não resistimos à tentação de lhe roubar algum do seu precioso tempo para trocar com ele umas breves palavras.
     Simpaticamente, o Professor acedeu ao nosso pedido. Aqui fica o excerto dessa conversa.
 
Uzonline - Quando é que se começou a interessar pela ciência?
Carlos Fiolhais – Bem, isso aconteceu no tempo da escola, não necessariamente nela. Quando saía da sala de aula pensava sempre que devia haver algo para além daquilo que os professores me ensinavam e ia à procura das respostas por iniciativa própria. Procurei descobrir o que estava escondido.
U- Já nessa altura era curioso. Continua com esse entusiasmo?
CF – Claro. Sem curiosidade não é possível fazer ciência. A curiosidade é própria do ser humano. A ciência é uma construção humana e aprende-se melhor se se conhecer o modo claro como ela se desenvolve. Sabemos que as coisas são como são porque alguém as viu e experimentou. Contudo, também nós, se formos suficientemente curiosos e hábeis, podemos ver, experimentar e investigar.
U – Acabou de mencionar a palavra “investigar”. Pode explicar-nos o que é a investigação científica?
CF -  A investigação ou pesquisa científica, que basicamente consiste em saber mais sobre qualquer assunto, acaba por estar relacionada com o quotidiano de todos nós. A palavra investigação surgiu só no século XV, pouco antes da Revolução Científica que deu origem à ciência moderna. Provém do Latim: resultou de juntar “in” a “vestigium”, o que literalmente significa ir atrás de pegadas, seguir o rasto de alguém. De acordo com a etimologia, o investigador científico vai atrás de marcas. A sua tarefa é semelhante à de um detective.
U – Podemos pois deduzir que se sente como um Sherlock Holmes ou um Poirot quando faz investigação?
CF – Um pouco. Mas eu não persigo criminosos. (Ri) Apenas dou explicações daquilo que nos rodeia. A Física não é uma actividade exótica mas tão só uma tentativa de descrever e explicar o mundo onde vivemos.
 U – Como divulga os seus resultados?
 
CF – Faço-o de várias maneiras: em conferências, em palestras, em artigos científicos que publico em revistas especializadas, em artigos que escrevo para os jornais, em sessões de divulgação e através dos livros que publico.
 
U – Uma das suas actividades é a de consultor de uma editora conhecida. Sabemos que fez a revisão científica do livro “A Fórmula de Deus” pois o próprio autor o refere no final do seu trabalho. Gosta dessa actividade?
 
CF – Por hábito leio muito. Nos livros descobrem-se outras opiniões, outras formas de ver o mundo. Através deles trocamos ideias com os autores. Sou leitor por prazer, por isso esse é um trabalho que faço com gosto.
 
U – Como consegue ter tempo para tudo isso?
 CF –  O tempo é limitado. Não se pode esticar porque não é elástico. A dilatação do tempo é um problema que não tem solução fácil... Eu sou acima de tudo professor – gosto de o ser - e as sessões de divulgações são uma extensão das minhas aulas. Podemos chamar-lhe também aulas, o que não quero é que sejam más aulas ou simplesmente mais aulas. São aulas um pouco mais divertidas.
U – As suas aulas são divertidas?
CF - Nem todas as aulas podem ser assim . Em primeiro lugar porque há uma série de conhecimentos formais que têm de ser transmitidos num curso e em segundo lugar porque há o perigo de se pensar que tudo é muito leve. Eu tive algum desgosto quando tentei tornar mais divertidas as aulas de Física Geral: de início veio muita gente, os estudantes traziam até as namoradas, os primos, os tios, etc., mas depois verificava-se o problema das aulas não poderem ser todas assim. Tem que haver umatensão permanente entre o trabalhodiário e o encantamento, entre o esforço e o prazer.
 
U – Sabemos que é pai, e como tal tem conhecimento prático do modo de funcionamento das nossas escolas. O que pensa da carga horária a que os alunos estão sujeitos?
CF - Idealmente, não devia haver tantas aulas, os estudantes deviam ter tempos livres para as suas iniciativas, organizar os seus clubes de ciência, fazer experiências, etc. Seriam precisos espaços e ambientes propícios para essas actividades. Mas não sei se tais escolas são viáveis. Um espaço de criatividade pode florescer em qualquer sítio, mas não acredito que esse espaço possa ser receitado e muito menos decretado para todo o lado.
U Como cientista, professor e pai, considera ser importante incentivar a «curiosidade apaixonada»?
CF – Sempre. A mensagem a transmitir é a de que a ciência se faz com curiosidade e paixão. Aliás isso não é exclusivo da ciência, há outras actividades humanas que se podem fazer com curiosidade e paixão... Voltando à escola: é preciso aproximar a escola básica da ciência. Para isso, ajuda muito a presença dos cientistas nas escolas, onde poderão mostrar um bocadinho da sua "curiosidade apaixonada". Muitos estão dispostos a ir, preocupados como estão com a actual realidade do ensino. Mas os cientistas vão lá e voltam. É preciso que a ciência fique lá.
U – É isso que tenta através dos seus livros de divulgação científica?
CF – Hoje, ao escrever livros de divulgação científica, procuro dar a outros um pouco daquilo que recebi. Mas não o faço apenas por este meio, ou pelos que referi anteriormente, também colaboro com os programas televisivos que visam levar a ciência ao público em geral. Os media desempenham um papel imprescindível na difusão da cultura científica. Alguns inquéritos mostram que a maior parte do que as pessoas sabem de ciência sabem-no a partir dos media e não tanto da escola. 
U – Como poderá Portugal levar a ciência aos mais jovens, de forma a proporcionar um maior desenvolvimento do país?

CF – O programa "Ciência Viva" tem sido benéfico, embora tenha "cercado" mais a escola para que ela se "renda", do que propriamente entrado lá dentro para a "conquistar" (espero que estas metáforas sejam bem entendidas...).
 
 U – Para finalizar, embora gostássemos de ficar mais um pouco à conversa consigo, no semanário Sol do passado sábado, começa o seu artigo de opinião com a frase “Sou um privilegiado”. É assim que se sente face à vida?
 
CF – Nós temos que saber valorizar aquilo que recebemos. Claro que muito do que nos é dado é também reflexo daquilo que damos. Mas respondendo à vossa questão: sim, sou um privilegiado porque trabalho numa área que me dá imenso prazer e o meu trabalho é reconhecido.
 
U – Obrigado pelo seu tempo. Desculpe termos interrompido o seu almoço. Bom apetite Professor.
 
 
Comentário final – Foi uma pena que o serviço do restaurante não tivesse sido um pouco mais lento, pois assim poderíamos ter tido oportunidade de formular um sem número de questões que ficaram a pairar nas nossas cabeças… curiosas!!
Fontes:
Entrevistas publicadas em:
http://nautilus.fis.uc.pt/personal/cfiolhais/extra/artigos/entcfiolhais1.htm
http://scienceideias.blogspot.com/2005/10/entrevista-carlos-fiolhais-um-curioso.html
http://caminhosdoconhecimento.wordpress.com/2005/10/04/entrevista-carlos-fiolhais-um-%C2%ABcurioso-apaixonado%C2%BB/ Out 2005
http://www.malha.net/index.php?option=content&task=view&id=21&Itemid=51
http://pt.textoeditores.com/index.jsp?p=140

           Artigo publicado no Semanário Sol em 17 de Fev. 2007
Página pessoal de Carlos Fiolhais (
http://nautilus.fis.uc.pt/personal/cfiolhais/)
           Livro -  Curiosidade Apaixonada
          Alguma dose de imaginação.

sinto-me:
publicado por rr_2 às 22:04
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